sábado, 1 de fevereiro de 2014

Um razoável conto do além

A primeira ideia pré-concebida sobre um filme abordando em sua temática um retrato sobrenatural e contando no elenco com a presença da cantora Sandy, que construiu ao longo da vida imagem de boa moça, pura e recatada de forma tão exaustiva pela mídia que, a contragosto, virou alvo de piadas e tal circunstância, por motivos óbvios, poderia não despertar em grande parte do público expectativa em assistir sendo erroneamente chamado de péssimo antes mesmo de conhecer melhor o enredo da estória apresentada.

No Recife, região que conta com nove grandes estabelecimentos além das salas alternativas, a estreia se deu em apenas em um deles, o Cinema da Fundação, sendo exibido numa sessão dupla que comparado a outras estreias do local teve desempenho fraco, pouco público para prestigiar a primeira direção solo em longas do diretor e também roteirista paulista Marco Dutra, elogiado por seu Trabalhar Cansa (2011), lançado no tradicional Festival de Cannes em parceria com a diretora Juliana Rojas.

Contendo parte do mesmo traço estético do antecessor, o filme que conta com o galã global de outrora Antônio Fagundes e do pouco conhecido para boa parte do público Marat Descartes, esse na função de protagonista, revela uma visão particular das mudanças ocorridas por uma pessoa sob influência de determinada entidade espiritual, representado no caso pela mãe já falecida do personagem central, alterando a personalidade durante novas redescobertas do período da juventude através de objetos transformados em quinquilharias e de uma antiga fita vhs que revela passagens referente algum tipo de culto religioso.

A transformação não se dá apenas no protagonista, mas nos demais personagens e também no apertamento onde grande parte do filme é rodado, de início possuindo uma iluminação limpa, clara e de visualização objetiva, entretanto, com o passar do tempo torna-se um lugar mórbido, sombrio, frio e claustrofóbico, dando entender ser um local carregado de más energias, sendo um excelente trunfo realizado pelo diretor de fotografia, Ivo Lopes Araújo, que soube como fazer essa transição de maneira gradual sem causar repentino desconforto visual.

Vemos também a construção de figuras secundárias interessastes, representado pela manicure com dons mediúnicos Miranda (Gilda Nomance), presente apenas em duas sequências, contudo, pertencendo a ela a cena mais enigmática de todo filme onde depara-se com tal entidade presente no subconsciente do homem atormentado pela forte presença da mãe falecida, abrindo assim o início do terceiro ato da trama, sendo esta a parte mais difícil encontrada pelo diretor para concluir sua obra já que a partir desde ponto não há grande evolução, dando pistas como será o final, que ocorre sem apresentar um grande clímax.

Apesar do encerramento pouco relevante, Quando Eu Era Vivo é uma produção de feições minimalistas que tenta não ficar preso ao conceito do lugar comum e nisso possui seu valor mostrando que existe sim espaço para novos segmentos do cinema nacional saturado há décadas pelo drama onde todo mundo chora, onde todo mundo é infeliz e das comédias sem qualquer relevância que bombardeia as salas comerciais, nessa produção independente de orçamento razoável para os moldes brasileiros existe um fio de esperança para novos projetos.


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